O povo do meio: uma paradoxal mistura pura
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Apesar de pertencerem ao tronco linguístico Macro-Jê, há um debate antropológico sobre a verdadeira identidade cultural dos Karajá em geral, dos quais fazem parte os Javaé, uma vez que estes não se enquadram facilmente dentro das características conhecidas dos seus vizinhos Jê-Bororo do Brasil central. A partir de uma análise do que a própria mitologia Javaé diz sobre essa questão, aliada ao estudo da cosmologia e organização social nativas, proponho que os Javaé concebem-se como o produto original e único de relações criativas entre duas grandes matrizes culturais, por mim associadas aos Jê-Bororo e aos Aruak centrais, embora reconheçam também influências menores dos Tupi e, agora, dos não-índios. Tanto a cultura como a pessoa são concebidas como produto de relações transformadoras entre diferentes e, ao mesmo tempo, da tentativa permanente e relativamente bem-sucedida dos atores sociais masculinos de neutralizá-las, ou seja, como paradoxais misturas puras.
